terça-feira, 16 de junho de 2009

VEJAM O QUE É INVEJA:


Dizem os psicólogos que numa visão mais genérica, há um certo tipo de inveja que faz bem. Ocorre quando você, além de desejar ter o que o outro tem, faz por onde conseguir o mesmo, servindo como impulsionador para construir seus próprios méritos.

“Por que Fulano pode ter e eu não?”, esse é o tipo de questionamento que a maioria das pessoas fazem. Uns enveredam para o caminho do complexo de inferioridade: “Ele tem porque é melhor que eu, porque pode mais que eu”, esses serão os novos clientes dos psicólogos citados acima. Outros, normalmente os mais vaidosos, topam o desafio que eles mesmos se impingem: “E quem disse que eu não posso ter o mesmo? Vou mostrar que posso ter tudo e muito mais. É o que poderíamos chamar de Síndrome da Laura (pra não esquecer a vilã charmosa da novela), esses são os que não medem esforços para conquistar o que desejam. Se são felizes? Maquiavel e sua máxima “os fins justificam os meios” que responda.

Mas o fato é que hoje eu senti inveja. Não que nunca tivesse sentido antes. Mas, em verdade, não é um sentimento que me incide muito. Contudo, especialmente hoje meu desejo de possuir algo de outrem foi arrebatador. Tudo o que mais desejei foi possuir aquela bicicleta. Não sei a marca, nem a cor, nem o tamanho exato. Era pequena, pelo jeito da nova dona. Creio que era rosa ou vermelha ou qualquer cor de menina (porque afinal de contas, cor tem sexo). Eu nem cheguei a ver a tal bike, mas a desejei vorazmente.

Numa loja de eletrodoméstico, enquanto aproveitava o dia ensolarado depois de semanas de chuva, para “resolver as coisas” (não é assim que a gente diz?), estava eu, numa fila curta e lenta, naqueles momentos que nem se pensa, nem se lamenta, nem se faz nada, exceto olhar pra frente, torcendo que a fila ande logo. Acrescido ao barulho natural dessas lojas que quase esperneiam por clientela, une-se a voz afável de uma criancinha que deveria ter uns cinco anos. À esquerda da fila de pagamento, estava o local onde se recebia mercadorias compradas e lá vibrava uma menininha de saia jeans curtinha, camisa rosa com um ursinho na frente, meias coloridas dessas que estão na moda, e claro, marias- chiquinhas no cabelo, com amarradores coloridos.Enfim, uma típica menina bem cuidada de nossa época. E ela pulava, gritava, pulava, gritava e pulava tanto que por vezes parecia gigante. Assim tornou-se, se não era intenção, o centro das atenções. Sorri eu, sorriu vendedor, caixa e a própria mãe, de certo que esta última sorria um sorriso com esforço, como se envergonhada pela alegria da filha sapeca.

Pois saibam que a menininha travessa era dona da minha desejada bicicleta. Ela rodopiava pela loja, gargalhando pra todo mundo e dizendo “Ganhei minha biciquetinha! Ganhei minha biciquetinha” e a sua “biciquetinha” era tudo que fazia o mundo ter razão.

Ela não sabia quem era Bush.Ela não tinha medo de ser assaltada.Ela não sofreria se perdesse um ente querido.Ela não discutiria horas com seu namorado e desligaria o telefone na cara dele, chorando. Ela não se sentiria só, perdida no mundo. Ela não reclamaria dos preços absurdos de tudo. Ela não teria que estudar ou trabalhar no que não gosta só por que ela acreditava “ser o jeito”. Ela não se enojaria com poderosos. Ela não desconfiaria das boas intenções das pessoas. Ela não sentiria dores físicas ou da alma. E por quê? Por que ela era dona da “biciquetinha”. Ela acabara de criar sonhos eloqüentes através daquele brinquedo. Ela teria a vida toda pela frente pedalando. Cair, chorar e depois dar risada lembrando de que após as quedas, uma vez aprendido, nunca mais esqueceria como manobrar sua “biciquetinha” Ela podia se exibir para todas aquelas pessoas estranhas da loja, por ter algo que ninguém mais possuía.

Ela carregava emoção do vento em seu rosto, ao passear com aquele mágico objeto. Ela era exaustivamente feliz em sua imaginação infantil. E o seu olhar inocente, e seu aprazimento com aquela compra me causaram tamanha inveja a ponto de chorar por almejar sua “biciquetinha”. Sim, eu chorei, chorei por desejar e saber que nunca ela me daria sua “biciqueta” e mais chorei por não lembrar onde havia perdido a minha.


Samelly Xavier (do livro Universo: o verso une - RG Editora, 2005)

7 Comments:

Agostinho Lopes said...

Vou "pegar o mote" e contar outra história, dentro da tua história.

"Onibus apinhado, sol a pino, meio dia, numa grande cidade. As pessoas se acotovelavam dentro do coletivo. De repente, um berro choroso: - Eu quero a minha bolinha!!!

Era um menino de uns 5 anos que gritava e chorava, querendo encontrar a sua bolinha que havia caído. Muitos passageiros irritados, outros se espremendo para tentar achar.

De repente, o motorista para e pede para que todo mundo desça, para procurar a bolinha do menino, pois o motorista também já estava de saco cheio.

Todos desceram, alguns procuraram e nada de encontrarem a bolinha.

Daí o motorista falou para o pirralho:

- Tá vendo menino, nós procuramos, mas sua bolinha não foi encontrada.

E o guri, entre as lágrimas que ainda molhavam seu rosto, disse:

- Tem nada não! Eu faço outra!

Daí meteu o dedo no nariz, de onde tirou "matéria-prima" para fabricar mais uma bolinha.... "

Samelly Xavier said...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. agostinho acabou com meu texto... kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Maria said...

Na verdade precisa-se de tão pouco. A menininha sabia que aquilo era uma dádiva,e como tal deveria ser festejada, agradecida, vivida na íntegra. Fiquei emocionada, lembrei o dia exato em que o Papai Noel trouxe a minha. Mesmo que ele não exista, serei sempre grata pela alegria pura que me proporcionou =DDD

Meu beijo

Agostinho Lopes said...

Same!

Agora estou escrevendo aqui também: http://umcontoumcanto.blogspot.com/

Não serão posts diários, como no “Salada”, mas atualizarei sempre que minha mente parar para poder traduzir em palavras as minhas vivências e as dos outros.

Beijo.....

P.S. - Não tive a intenção de "estragar o post". hahaha

Hugo Amorim said...

Bem, depois de tanto pedir para eu comentar aqui...vou faze-lo em um dia em que nao me dediste. Lembrei de vc quando a janelinha no msn apareceu...entao resolvi passar aqui so pra dizer o quanto faz bem ler seus textos nos dias sem sentido onde a unica coisa que tem de ser feita é estudar para as enfadonhas provas da faculdade. Lendo o que vc escreve me sinto mas reconfortado com minha mediocre existencia...hehehe e mais feliz em saber que a felicidade ainda existe em coisas pequenas como um bicicletinha (diga-se de passagem, comprei uma bicicleta essa semana), so espero que nunca pare de escrever, porque nao pretendo nunca parar de ler seus pensamentos materializados em palavras nem que seja distante pela rede...bjos...adoro voce...saudades
Hugo Amorim (lembra de mim ?hehehe)

Fern! said...

Ahhh... Sabe que até um dia desses eu via uma outra menina de cinco anos andando na minha "biciquetinha", de quando eu tinha os mesmos cinco anos... Cada coisa guarda um monte de lembranças, me lembro de painho me ensinando... Lindo texto, um dos meus preferidos do livro!

Anônimo said...

Particularmente sinto-me muito feliz quando as pessoas estão felizes! Graças à Deus.
Mas se voçê quer saber o que é inveja, vou lhe dizer:
Nada mais é que: não conhecer a sua função e seus objetivos aqui nessa terra, não desejar viver a sua própria vida com os sonhos de Deus para voçê.
Não ter personalidade própria.Pensar que a grama do vizinho é mais verde! E toda pessoa que já está madura sabe que não é assim.
Todos tem suas dificuldades e seus problemas. Se tem sucesso verdadeiro é porque sofreu muito para chegar onde está. É claro que algumas pessoas sobem na vida pois foram desonestas, não porque lutaram, mas isso é excessão.
A pessoa que tem inveja tem o prazer de julgar e até mesmo fofocar, "comentar" de forma maléfica e destrutiva e não para ajudar.