domingo, 3 de maio de 2009

SONHANDO SONHOS

Hoje é domingo e choveu na minha janela. Choveu no meu olhar. Por ser domingo, talvez. Por ser o dia que cabe limpar os armários e arejar as janelas. Também os olhares.

Em suma, ou eu chorei porque choveu ou o céu lagrimou por eu ter chovido. Mas não sejamos vítimas dos clichês enraizados, porque meu choro foi emoção. E se emocionar talvez seja só uma forma de reconhecimento: ver no outro o que se é. Pois que seja.

Se nunca foi beijada, seus lábios distribuem afeto ao se moverem, em sorriso ou em cantoria. Se serve de ibope para programas água com açucar, serve mais para adoçar os ouvidos, fazendo-nos repensar e sentir agudamente.

Eu não sei se por ser domingo, se pela chuva ou pelos miseráveis relembrandos na canção, mas a "Nova Cinderela", como ficou conhecida, tocou meu coração de tal maneira que o clichê se desintegrou tal qual os pré-julgamentos aos quais assistiu em tom de sorriso infantil.

As luzes do palco não combinam com sobrancelhas por fazer, é bem possível. Do mesmo modo que os olhares desconfiados não combinaram com a explosão de aplausos. Quem sabe algo sobre mim, sabe que o idioma inglês não me apetece a língua, nem os ouvidos, mas ao ouvir Susan Boyle entoar o clássico musical que retoma "Os miseráveis" de Victor Hugo (um dos primeiros livros a me apunhalar a existência) não ouvi línguas, nem lábios; ouvi os sonhos, afinandos na melodia de quem não tem medo do ridículo, porque ridículo mesmo é quem prevê sensações. O coração não pulsa duas vezes no mesmo ritmo e as surpresas não vêm de fora, vêm da alma. É na alma, apenas, que moram as tais caixinhas de surpresas. Susan era a surpresa. O palco, a caixa.

Susan Boyle, com seu desengonçamento, sua ingenuidade, suagauchice (pra lembrar Drummond) e maestria fez simplesmente o óbvio complicado de cada dia: ela foi quem é. Foi pulo, chacota, tremor, sentimento e alma, muito alma convertida em notas musicais que preenchem olhos e ouvidos e transbordam chuvas, como a do meu olhar deste domingo à noite.

4 Comments:

Agostinho Lopes said...

Antes havia um papa que era pop, no dizer do "Engenheiros do Hawai".

E há, agora, Susan Boyle, a redenção dos e das "desabonitados e desabonitados"... hehehe

Viva a essência!

Kamila said...

Foi massa, tanto a poeta aqui como a cantora lá.
beijão!

Técio Macedo said...

A primeira vez que eu assistir ao vídeo de Susan Boyle eu fiquei impressionado... Talvez pq eu sou facilmente encantado pela arte bem feita, mas acima de tudo sou encantado por aqueles que são bem feitos pela arte. Assim é Susan Boyle que, cantando uma música que ecoa sua alma e sua vida, nos faz perceber que no final das contas nós, aqueles que julgamos com olhares abjetos, somos os grandes "miseráveis" incapazes de enxergar a grandeza da vida, que acreditamos mais em uma bela arte do que na arte bela.

Fern! said...

"Kamila disse...

Foi massa, tanto a poeta aqui como a cantora lá."

Eu vim pra escrever um comentário, mas Kamila já disse tudo...

Abraço apertado,
Da sua fã sem número