Seja por tecnologia ou metáfora lírica, amar pode ser bem comparado aos perfis de um celular. Aliás, é pelo celular que, enquanto aguardamos o céu e o luar, conversamos suspirando fone no fone, feito fosse olhos nos olhos.
Sempre amei no perfil ALTO com medo de o amor tocar e eu não ouvi-lo. O que não me dei conta foi que o escândalo do toque fere ouvidos alheios quando na verdade a ligação era pra mim. P-r-a m-i-m!!!!! No perfil ALTO, cada tecla faz um barulho diferente; cada toque tem seu som. É sinestesia brincando de tesão musical . Pois bem... Parece bom, mas é exagerado. É a eterna confusão humana em misturar intensidade com excesso... A primeira deve ser calmaria e fortaleza; o segundo é escândalo e fragilidade. O resultado foi que, no meu caso, o amor não era cego: era surdo e o era não por genética, mas por lesão adquirida. Os sons em barulho crescente se tornam, pois, ensurdecedores. O celular não suporta, explode e há de se adquirir nova bateria...
Por extremo e pra continuar a metáfora lírica, passei, então, a amar no SILENCIOSO. Como eu já havia previsto desde os tempos do perfil ensurdecedor, o amor chamou, chamou, chamou e eu não o ouvi. Sequer o vi brilhando e piscando com olhinhos infantis. Como Chico e os de olhos verdes sabem, eu era apenas uma mulher... Que, para completar, estava de óculos escuros e bolsa grande. Mulheres de óculos grandes e bolsas escuras tendem a esquecer o céu e o luar. Resumindo: ligação perdida não conta para laços afetivos. Tentar retornar a chamada, só frutra: dá ocupado ou desligado. Porque, ao contrário do que nos ensinaram os filósofos, o amor tem pressa e quando não atendido de imediato, ocupa-se em outros afazeres (até mesmo em deixar de ser amor) ou se desliga (troca o perder o fôlego pelo ficar fora de ar...)
Cansada, finalmente, da parafernalha tecnológica e poética, passei a amar no perfil GERAL. Lá, tanto fazia o toque ou quem me ligava. Não era exagerado como o aaaaaaaalto; nem inexpressivo como o (silencioso). Era padrão, como se sabe, e, aparentemente servia tanto para as reuniões do fim do dia, quanto para os sutiãs pendurados do começo da noite. Mas sofria do mal da mediocridade. Quantas vezes a ligação era pra outrem e eu procurava, no peito, meu céu e o luar pensando que era pra mim! Celular muito usado quebra fácil, porque, como nos ensinaram os marketeiros, eles não foram feitos para durar, e sim para devorar. Devorado, não sobra os ossos, sobram as pilhas sem energia.
Como eu sou insistente e devoradora de vozes bonitas - e para completar a metáfora - creio, agora, estar no caminho certo: amar-querer-sentir-desejar em vibra-call me parece, enfim, o mais adequado. Sem o grito do aaaaaaaaaaalto; sem a inexpressividade do (silencioso) e, muito menos, sem a apatia do GeRaL. Amar no vibra-call é sentir tremores, sem a necessidade de justificá-los para qualquer vizinho. O tremor é seu, você que o atenda e se entenda com ele! Depois de atrevimentos e inexperiências, acho que cheguei onde eu queria: quando vibra (o peito ou o seio) eu sei que é ele!