sábado, 20 de dezembro de 2008

NOS MEUS OLHOS, É REFRESCO


Meus olhos são comestíveis e não têm prazo de validade. Aprendi a comer primeiro pelos olhos. Mas não se enganem... Eles não sabem devorar. São de uma timidez vermelha e ecoante. Espalho vermelho pelos poros e fecho ou abaixo os olhos quando não sei reverenciar.

Meus olhos são sempre quentes e quando recebem gelo viram fumaça. Meus cílios abanam labaredas, e quando eu pisco sinto calor.

Meus olhos estão sempre diante de uma loja de doces. Mesmo nos velórios a que nunca fui. Sempre arregalo os olhos pensando em cada possibilidade absurda que posso extrair da obviedade mais piegas. Eu gosto da intensidade, mas não do exagero.

Meus olhos são assustadores pros conformados; e exibidos pros infelizes. Pros amigos, são pevisíveis. Eu ainda preservo uma criança incoveniente dentro do meu olhar. Gosto de correr riscos, de tocar sentimentos, de sentir o cheiro das vontades, de experimentar lamber o pecado. Só não gosto de me esconder-esconder.

Ao contrário do esperado, não gosto de ser o centro das atenções. Eu gosto muito de ser a circunferência das atenções. Estar ao lado. Abraçar ilimitado. Ser alegre pela piada alheia.

Ao contrário do esperado, não gosto de sexo três vezes por semana. Eu gosto mesmo é do amor de cada estalo de dedo. Do sorriso contemplativo dos velhinhos nas praças; do sorriso banguela das crianças nas janelas dos ônibus. Eu gosto de sentir o amor como uma afinidade sem possibilidade de medição. O amor enquanto febre alta e delirante. Não entre quatro paredes, mas entre os quatro pontos cardeais. Amar todas as estradas áridas e férteis de todo o mundo que cabe na geografia da minha alma.

Ao contrário do esperado, meu olhar é o que menos importa. Porque eu sou o que me enxergam ser. Tenho tantas versões para mim que só dirigindo um submarino lunar eu conseguiria contá-las.

Sou egoísta em coletivo. Gosto de saber o que faz com que as pessoas que eu gosto, gostem de mim. Há pessoas cujo gostar é um troféu. Há também aquelas que nos ofendem por nos gostar. Somos nocauteados por gostares que nos fazem pensar: que tipo de pessoa eu sou pra aflorar um gostar em alguém assim?

Ao contrário do esperado, este novo começar (ou seria continuar?) é sobre seus olhos, não sobre os meus. Porque eu espero ser vista. Não como quem eleva as mãos para aplaudir. Aplausos estão fora de moda. Eu quero ser vista por mãos que se entreleçarão em mim, fazendo-me seguir adiante. Para onde? Para onde nossos olhares alcançarem...
Samelly Xavier, olhando novos olhares

16 Comments:

Agostinho Lopes said...

Quando tive a idéia de fazer um blog, em abril de 2007, me inspirei em tu e fostes fundamental no apoio...

Hoje, fico feliz em poder te "dar as boas vindas" aqui, no mesmo "condomínio" novamente.

Bem vinda, querida amiga. É bom estar perto!

Paloma said...

"Há pessoas cujo gostar é um troféu. Há também aquelas que nos ofendem por nos gostar" Adorei essa ultima parte!!! Tem gente mesmo que me ofende por gostar de mim, mas é uma ofensa tão rebelde, tão fora de si que nem sentem. Amor é pouco presse tipo de gostar, e nem é ódio, é uma coisa meio Saméllyca!

Carlos Lucchesi said...

Que bom ver "seus olhos" por aqui. Acho este um espaço melhor que o anterior. Com certeza vou acompanhar sempre os seus novos textos.

Beijão Same,

Carlos Lucchesi

Amanda said...

menina, como esse blog ta liiiindo!
amei,amei. quando eu li o título desse texto imaginei um milhão de coisas ne?! mais especialmente nossas longaas conversas no laboratório que fazem uma falta imensa. quanto ao texto eu nem preciso dizer que ficou emocionantemente emocionante..

Júlia said...

Adorei esse texto! Simples, e no entanto de uma profundidade absurda. Pode parecer piegas dizer que me indentifiquei muito com ele, mas é a pura verdade (sem bajulações, hehe).

Bjus Samelly!!

Sidney Andrade said...

Falar em olhos pra mim? Isso é provocação por acaso?
Se bem que nem sempre os olhos de que se falam sejam os olhos com os quais se enxerga (bem, "nem sempre" é eufemismo de bajulação, porque, por razões óbivias, os olhos dos quais porventura falo NUNCA são os com os quais enxergo.)
Egocentrismos à parte, recomeços são sempre benéficos. Há de se refrescar um pouco as vistas cansadas...

Beijo lacrimal, poliamada.

LAU SIQUEIRA said...

eu gostava mais do outro. Mas, acho que são meus olhos... eles demoram a se acostumar.

Maria said...

Tenho que destacar o que me surpreendeu mais:

“Ao contrário do esperado, não gosto de ser o centro das atenções. Eu gosto muito de ser a circunferência das atenções. Estar ao lado. Abraçar ilimitado. Ser alegre pela piada alheia.” Eu Tb sinto exatamente isso! Talvez por isso a sobriedade seja mais conhecida em mim. Uma forma de não roubar a atenção que não me interessa!

“Há pessoas cujo gostar é um troféu. Há também aquelas que nos ofendem por nos gostar. Somos nocauteados por gostares que nos fazem pensar: que tipo de pessoa eu sou pra aflorar um gostar em alguém assim?” Idéia traduzida perfeitamente.

Bom, querida, estar nos seus favoritos é uma honra! Senti-me enlevada. Obrigada ^^

Beijos doces

Fern! said...

E eu: Gosto de sentir o amor do seu abraço ilimitado!
^^
Lindo o texto!
Lindo o blog!
C=
Saudade de tu!
XD
Abraço apertado,
Da sua fã sem número!

Rousi said...

Vou pular a parte que eu comentaria sobre o fogo no rabo: "Meus olhos são sempre quentes e quando recebem gelo viram fumaça. Meus cílios abanam labaredas, e quando eu pisco sinto calor."

^^ \o/ fooogo ^^ kkkkkkkkkkkk

Porque o que eu queria mesmo era falar sobre os seus olhos assustadores, mesmo eu não sendo conformada; exibidos a toda minha felicidade e im(pre)visíveis todos os momentos.
Não queria falar da forma que eles vêem, mas da forma que os vejo cada vez que eles vêem e que brilham (e é um brilho "serenamente dessesperado" se é que Cecília me permite SER CÍLIA para retratá-los com maior perfeição).

Não acho que os olhos sejam o espelho da alma... pq eu não preciso dos meus olhos e nem dos seus para enxergar a Samelly que eu vivo, sinto, imagino, descubro e continuo a viver.
Não irei aplaudí-la já que te reverencio e aplaudir seria regredir nos elogios... e também, por algum tempo, não poderei vêla (nem pelos olhos nem pelos entrelaçamentos dos (in)contáveis e INsaciáveis abraços), mas meus olhos SEMPRE poderão alcançar as pontes que unem a nossa amizade.

Beijos meus, já sentindo falta dos seus olhares entrelaçados.

;*

Rousi said...

Para poder me orgular de fazer um comentário curto e para você não dizer que eu nunca elogio seus textos na sua frente:

Adoro suas produções textuais ^^


kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Te amo, mesmo você sendo assim (ou seria justamente por vc ser assim?), é ... Te amo e isso deve importar!

Beijos meus

prisciladimorais said...

Samelly.
Falar de você,falar do que você escreve.Tudo isso parece ser muito complicado sabe? Você é alguém que em pouco tempo; tornou-se muuuito especial e essencial em minha vida. Nesse ano de 2008, aprende muito com você, pela pessoa que você mostrou ser; uma garota altamente feliz,simpática, encantadora, de um sorriso e uma alma belíssima.Cada palavra, cada frase que você escreve, passa uma paz,uma vontade de não parar de acreditar na vida. Sou sua fá de carteirinha.!! ÉS MUITOOO ESPECIAL.

Nybetto said...

“Os olhos são o espelho da alma”, já afirmou alguém.
Que tipo de janela seriam os olhos ao ponto de verem não apenas o dizível, apalpável, mas o incompreendido que só o poder de um olhar é capaz de decifrar, assim como alguns sentimentos só podem ser sentidos, mas jamais expressos? Eles podem ser a janela da alma, deixando que sejam ultrapassados os mais ínfimos sentimentos que alguém jamais diria, assim com por eles penetram as mais inesperadas imagens, as quais provocam os mais diversificados sentimentos. Acho que por isso tanta gente tem medo de olhar dentro deles, ao conversar sobre qualquer assunto, medo de que a alma seja vista, medo de enxergar a alma do outro. Talvez o melhor pseudônimo fosse porta, porque são pelos olhos que passam as mais belas imagens, assim como as piores, são eles que “fotografam” e guardam em nossa memória imagens que jamais queremos esquecer, assim como outras que adoraríamos nunca ter visto. Por esse motivo, é um prazer enorme não só ter olhos porta, janela, máquina fotográfica, que deixa passar e ultrapassar (sim porque vai além do que se vê) os mais belos sentimentos despertados pelas palavras de Same.
Parabéns pelo texto e pela nova roupagem do blog. ;)

André said...

lindão o texto...
adorei esse blog... fico alegre só de ver (a egípcia dos olhos lindos).
comentário rápido pq eu tou conversando.. contigo!
xeeero!

3pod said...

Ah, entendi tudo agora... vc passa pra fazer "propragrana" do novo blog, mas comentar que é booommm... :P

Sei não viu, esse mundo tá perdido, não escapa nem poeta...

Robson waite said...

ficou mt bom !
=)